sábado, 4 de agosto de 2012

O terceiro andar e qualquer banana podre vista daqui de cima


Como qualquer coisa que por melhor que seja depois que derrama fica doce e apodrece se ninguém limpar. O chinês triste do bar, a moça cega da rodoviária ou eu mesma.

Parece que eu tô exatamente em cima de um muro gigante e tão completamente dividida e eu nem sei quais são as opções. Meu paradoxo. E é tão alto que eu nem consigo enxergar mais o que tem de cada lado fica tudo meio embaçado e a chaleira não apita mais.
É que tem uma angustia tão pesada como se não houvesse paz alguma aqui mas é mentira. Eu nunca mais quis isso porque eu cansei da lente suja da melancolia e eu juro que dessa vez eu não quero.
Eu aumentei o som até microfonar e mexi todas as coisas de lugar mas tem uma inércia me prendendo em qualquer coisa que talvez seja todo o meu apego. Um balão que ficou enroscado. Ou engalhado. Porque era sempre assim.
Eu que prendi qualquer coisa que tenha ficado presa.
Também sou eu que tenho que desamarrar.
Casa.
Casa?
Eu não consigo te olhar de frente hoje porque eu não consigo me olhar de frente hoje por alguma vergonha que eu não sei e alguma falta que eu mesma inventei.
As vezes eu escuto eles lá embaixo ou mesmo aqui no telhado e não importa que eu tenha subido pro terceiro andar porque eles sempre me encontram.
Eu tô morrendo de saudade.
De mim também.
Nem que faça todo o vento do mundo que já é muito melhor do que seria sem.
Nem que chovesse o dia todo e molhasse tudo porque minha mão tá tão seca que as coisas tão mesmo começando a rachar pra valer.
Acho que eu tô começando a rachar pra valer porque mesmo que eu nem tenha percebido algum processo começou há bastante tempo e eu só vejo agora que ele tá chegando ao fim: eu consegui. Mas não sei se eu ainda quero.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sobre a rodoviária cega e o meu amor


Tem um moça linda e cega aqui do meu lado contando pra alguém como ela faz faculdade em braile.
Tô vendo Curitiba amanhecer e tá frio pra diabo e tô ouvindo a gente tocar Dylan's song com amor e pensando na vida. Aqui parece que sempre amanhece devagarzinho.
Aqui é o lugar onde eu sonhei um monte de coisa um dia mas então eu vi que sonhar não é sobre um lugar.
Meus dedos nunca foram finos como eu queria e eu nunca cheirei coisa doce e fresca e feminina.
Quando tá calor eu tenho cheiro de ferrugem. Quando tem vento eu melhoro.
Agora eu vou juntar meu cobertor e vou lá pra dentro. Ta tocando música clássica no banheiro e uma  prostituta nordestina/paulistana veio reclamar do preço do café aqui pra mim e por um momento estivemos juntas, concordamos e depois partimos.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Sobre a Maria Desejo e sua morte sorocabana

Um coma induzido por mim mesma.
Fiz minhas esculturas todas ocas e depois as coloquei no pé da sua cama mas lá sempre chove e depois faz sol e depois chove e depois faz sol e é claro que elas racharam e você não devia estar perguntando com essa cara de quem não viu.
Sabe que eu não aguento de novo todas essas tempestades sendo que aqui dentro eu tenho um laguinho hoje (ou uma tempestade outra) e prefiro não me arregaçar tanto outra vez se esse arregaço não é meu: é seu.
Que seja brilhante e com um pote de ouro no final mas que você nunca consiga colocar os dois pés inteiros lá porque daí acabaria, né?
As vezes eu acho que aqui já acabou mas eu talvez só precise de outra drenagem no meu pulmão e que esse sino de merda pare de insistir.
Eu fico aqui entre me afogar e ser  jesus caminhando sobre as minhas próprias águas mas na verdade só importa que o mundo continue parecendo vermelho as vezes e que algumas noites nem existam.

No fim das contas Maria morreu de cansaço. O sangue escorreu devagarzinho: um filete fininho que nem se via. Era rosinha e no final virou água do mar de novo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sobre as (in)certezas e esse meu corpo que é a minha casa

Acho que ouvi Smiths demais aos 15 por causa de um primo do campo que nunca mais falou comigo e agora todos os meus títulos são uma porra de uma frase.
Mas eu ando menos sistemática. Mesmo não sendo nada romântico eu sempre gostei das certezas. Agora já pari esse filho sangrento e não sou mais obcecada por elas.
Eu tenho só sido.
Eu tenho esse corpo que é meu e que eu posso dobrar como eu quiser.
Não é assim tão saudável mas é esguio e resistente e consegue caminhar bastante. Eu posso ir a quase todo lugar. Quero ir à Cuba e Pernambuco e depois voltar pra Laguna com os pescadores do meu lugar redondo laranja ou só poder sentar sempre na janela enquanto for noite, sem importar que a estrada seja assim tão fodida.

As estradas mais fodidas podem ser as mais bonitas.
Janela escancarada.
Eu to aqui.
Por que eu vim.

domingo, 13 de novembro de 2011

Sobre as cavidades

Tem um homem que eu amo o tempo todo. E tem outros homens e outras mulheres que eu também amo, de certa forma, por uma noite ou duas. Até uma semana. Ou um mês. Eu amo bastante.
Mas eu acabo nunca deixando de amar o homem que eu amo o tempo todo. Mesmo nas noites ou semanas. Ou um mês.

Cabe tudo isso na gente.
Cabe em mim hoje.
A gente muda o tempo todo. Revê. Cavando bem fundo na nossa própria bosta a gente acaba achando e não importam as tripas finas ou as noites sem fim.

O homem que eu amo o tempo todo tem os polegares opositores um pouco fora do lugar e isso faz com que suas mãos caibam exatamente sobre outro par de mãos um pouco menores do que as suas. E que também caibam bem sob o par de mãos menores quase sempre. E que as vezes não caibam em lugar nenhum porque a gente não tem que caber sempre. Caber sempre é uma merda horrenda.

São as mãos de um índio guerreiro e as veias ficam saltadas no verão.

Sinto que de certa forma ele entupiu as minhas cavidades todas com coisas. Eu devolvo com jatos de outras coisas e assim a gente vai dançando essa valsa louca desordenada pelas entranhas do mundo.

São sempre as horas entre nós. As vezes algum sangue. Outros estados. Outros homens e outras mulheres. Mares. Atabaques. As vezes a solidão do Hopper. Algumas coisas rasgadas. Coisas novas. A vida.

À vida.

Não importa como. Mesmo quando a gente tá um pouco perdido e afundado acaba sendo sempre um brinde.
Acho que no final das contas somos um bonito brinde à nos mesmos, que seja.




Enquanto o vendaval não passar sou o seu amante e taco fogo em teu véu.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O (meu) uivo

Assim parada, no escuro, ocupando não mais que 1cm da sala, rígida, fria.
A porra da luz não podia parar de funcionar de manhã?
Hoje. Sozinha pela primeira vez em dias. Talvez um mês. Talvez dois.
Me sinto não mais que uma lagartixa noturna de sangue frio. Tentando não mexer muita coisa pra respirar. O celular em punhos. Pronta pra ligar... pra quem?
Acho que eu consigo tatear o caminho até a cama. E dormir suando devagarinho.
Mas daí uma bicicleta na madrugada e a leveza de uma outra vida, de um outro jeito... a revolução e um vinho. A troca. Sem sangue nos dedos.

Dos gardenias para ti.
Dos gardenias para mí.

Sobre as entranhas e a ferrugem

De repente o quarto encolhe e então tudo parece verdade e eu pareço uma mentira tão fajuta que qualquer um desmascararia. Fica mais calor e eu, mais aflita. Mas ninguém me descobre.
Tem sangue nos meus dedos de novo e eu até gosto do gosto de coisa enferrujada que o meu sangue tem. Parece bicicleta na praia.

Hoje eu sou uma fonte. E estou jorrando. Ainda que a água saia sempre um pouco turva, um pouco preta, um pouco suja...