quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Sobre o meu coração de rodoviária (mas nem tanto)

Hoje eu sentei um pouco no sol da manhã na rodoviária pra comer o meu pão enquanto a cidade ia ligando.
Queria sentir de novo essa coisa toda de ir. Isso que fica aqui pairando nos banquinhos cor de laranja e nas quinas entupidas.
Um pouco de dor e festa. Ir embora pra sempre e chegar.
Um lugar de movimento...

Segue o fluxo no palco viaduto do chá. Só quem tem sangue no corpo é que vai ficá.

Lembrei da madrugada em que fui até aí.
Uma estrada nova, outro lugar.
Eu amei todas as suas luzes e ruas. Todas as suas árvores.
E uma praça de tantas horas perdida entre a cultura racional e o carinho da prostituta falante.
A madrugada indo e então passou a nossa noite suspensa no mundo.
Alguma luz vindo do corredor lateral.
Silêncio.
Respiro.
O seu cabelo no travesseiro do lado do meu e então o seu nome foi parar na minha carta-guardanapo de despedida.
Coloquei um ponto de interrogação junto porque eu nunca sei se só eu lembrando vale alguma coisa.
Mas eu coloquei e agora carrego na minha carteira, perto do meu coração: sempre úmido, só que grande.


sábado, 29 de junho de 2013

Breve anotação nervosa ou: em queda livre

O medo é um sentimento de muita potência.
Impulsiona mais do que congela.
Mais eficaz do que a segurança.
Só não pode ser um estado de espírito.

Sempre achei Blonde Redhead fúnebre e bonito. Que ironia...
"A miséria é uma borboleta."
- É?
- É.

E eu aqui tão alto agora...
Em cima do mar.
Ao menos isso: se eu tivesse que escolher onde acabar seria no mar mesmo.
Sem dúvida.
(e depois do teatro ontem e o dorival caymmi falando de como é doce morrer no mar...)
Continuou chacoalhando por uns minutos que parecia que o relógio tava desmaiando e todo mundo junto.
A gente aqui flutuando.
E depois: silêncio.

Com certeza ia ficar tudo bem.
(mas eu nunca sei com quanta veemência eu devo ter certeza.)

Agora que passou parece bobo.
Mas o medo é um sentimento (o medo é um sentimento?) de muita potência...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sobre o lugar redondo e laranja (parte 1.000)


Tem uma coisa assim sobre voltar pra casa ou partir daqui que impulsiona tudo.
Cada coisa no seu lugar.
O Tom não tava me esperando na esquina da rua de terra dessa vez mas ficou tudo bem.
É o jeito que o vento sopra aqui.
Tem isso que fica entre o lindo e o macabro. O horror mora junto mas é por causa de tanto amor e aí o peso da possibilidade da morte e então o horror. Na brevidade. Na saudade.

"Você acredita no horror?"

Eu li isso hoje enquanto esperava em Curitiba.
Curitiba é sempre o meu meio do caminho. É o lugar onde um dia eu já sonhei.
Acho que não é por acaso que eu sempre espero tantas horas amassadas lá.
Tem umas coisas que eu queria conseguir dizer mas eu não sei.
Sobre alguma noite perdida de 99 em Nova Veneza. Aquelas estradas cheias de curvas.
Todos os CDs do meu primo esquecido.
A noite quieta.
É uma coisa sobre o coração encaixar tão bem que nem dá pra falar.
A angustia de novo.
Depois o imenso do mar.
- Mais uma de iodo, por favor.
E agora eu já posso voltar de novo.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sobre aquela sensação do sangue na boca (só que sem sangue agora)


O dia estacionou de novo.
Cheiro gosto cor barulho de nada. Fim de tarde.
Ninguém beijou meu estômago dessa vez. Parece que ele caiu e ficou estendido por ali...
Panela de pressão fazendo o feijão de alguém, luz amarela acesa, a voz do jornal, o cheiro dos xampus nos cabelos limpos dos outros... Todo mundo voltando pra casa.
Queria a minha hoje.
Mas eu sempre me atraso e o último barco já foi.
Aí eu fico sentada aqui olhando pra parede que começou a mofar outra vez.
Sufoquei. Não foquei nada. Passou.

Deve ter sido só esse meu pé inchado e todo o café que eu não devia ter tomado. A saudade de tudo de sempre. O gato que pia baixinho pra eu não esquecer. Mordendo minhas ataduras. Fazendo doer e ficar vivo. Nada de novo. Todas as minhas palavras repetidas. Minha vida em looping.
Não é nada ruim, no final.

Só é tudo de novo.

quinta-feira, 14 de março de 2013

A raposa na janela


Algumas coisas não fazem muito sentido.
Penso nas suas miniaturas todas enfileiradas organizadas dentro do espelho. Nas suas janelas.
Parece que não se deve escrever sobre amizade porque é de um peso mais estável. E eu que nunca fui das relações turbulentas... 
Você bem sabe que eu sempre me adapto. Sou eu que vou ceder. Eu que me espremo pra passar no cantinho e não embaralhar o rumo das coisas apesar de tudo precisar de uma embaralhada.
Me faz sentido isso.
Eu descobri que sou “uma pessoa cooperativa”. É o termo técnico psicológico. Sei lá.
Olha só, eu tava falando de você e agora to falando de mim.
Acho que é tudo sempre uma boa desculpa.
É só pra dizer que fiquei feliz em te ver bem. 
Gosto das nossas coisas assim. Talvez seja a beleza daquilo que a gente dividiu um dia ou as fotos borradas e o barulho da rua.
Penso na sua armadura pro mundo.
Penso na minha nudez.
Não sei.
Invejo a sua dureza.
Te quero bem.

Tô aqui sentada na minha rede de frente pro mar que eu desenhei, esperando o outono com o colo vago, disponível, macio.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Enxugue o suor do meu cabelo


Eu pari o lar.
E agora eu quero estar em todos os lugares mas carrego essa dor pra sempre
Nossas escolhas de concreto que moram nos ombros
Minha mãe linda e suada
Penso no vento da praia. Aquele barulho nenhum. Tudo onde deveria estar.
Ela lá. O pai no telhado. A Manu na sala.
Eu na rede.
Penso desterro
Choro tudo
Vai tudo bem mas aqui fica o assoalho que range sob o nosso peso só que ainda nem é domingo e eu não quero nem imaginar
É claro que amanhã vai tá tudo bem mas hoje tá comprido

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Eu vejo uma luz verde


Acho que a minha rua vai ser de terra até o fim.
Antes eu queria que ela fosse asfaltada mas eu não quero mais.
Qualquer coisa preciosa pra guardar. Santuário.
Essa ladeira é pra descer assim mesmo. Tropeçando nas pedrinhas. Querendo chegar.
Vejo minha casa verde lá no fim.
I see a green light.
Alguém beijou meu estômago.
Meu marasmo favorito.
Isso aqui já foi tanta coisa. Desespero, agonia, agonia, amor.
Eu precisava sair. Eu saí.
Agora é o meu lugar favorito. O meu lugar pra voltar.
Eu não posso voltar pra sempre.
Eu gosto assim.
Finalmente um hiato enorme e um barquinho flutuando devagar.
Nenhuma tripa escorrendo.
Ventou bastante essa noite.

Enfim,
             nada.

sábado, 4 de agosto de 2012

O terceiro andar e qualquer banana podre vista daqui de cima


Como qualquer coisa que por melhor que seja depois que derrama fica doce e apodrece se ninguém limpar. O chinês triste do bar, a moça cega da rodoviária ou eu mesma.

Parece que eu tô exatamente em cima de um muro gigante e tão completamente dividida e eu nem sei quais são as opções. Meu paradoxo. E é tão alto que eu nem consigo enxergar mais o que tem de cada lado fica tudo meio embaçado e a chaleira não apita mais.
É que tem uma angustia tão pesada como se não houvesse paz alguma aqui mas é mentira. Eu nunca mais quis isso porque eu cansei da lente suja da melancolia e eu juro que dessa vez eu não quero.
Eu aumentei o som até microfonar e mexi todas as coisas de lugar mas tem uma inércia me prendendo em qualquer coisa que talvez seja todo o meu apego. Um balão que ficou enroscado. Ou engalhado. Porque era sempre assim.
Eu que prendi qualquer coisa que tenha ficado presa.
Também sou eu que tenho que desamarrar.
Casa.
Casa?
Eu não consigo te olhar de frente hoje porque eu não consigo me olhar de frente hoje por alguma vergonha que eu não sei e alguma falta que eu mesma inventei.
As vezes eu escuto eles lá embaixo ou mesmo aqui no telhado e não importa que eu tenha subido pro terceiro andar porque eles sempre me encontram.
Eu tô morrendo de saudade.
De mim também.
Nem que faça todo o vento do mundo que já é muito melhor do que seria sem.
Nem que chovesse o dia todo e molhasse tudo porque minha mão tá tão seca que as coisas tão mesmo começando a rachar pra valer.
Acho que eu tô começando a rachar pra valer porque mesmo que eu nem tenha percebido algum processo começou há bastante tempo e eu só vejo agora que ele tá chegando ao fim: eu consegui. Mas não sei se eu ainda quero.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sobre a rodoviária cega e o meu amor


Tem um moça linda e cega aqui do meu lado contando pra alguém como ela faz faculdade em braile.
Tô vendo Curitiba amanhecer e tá frio pra diabo e tô ouvindo a gente tocar Dylan's song com amor e pensando na vida. Aqui parece que sempre amanhece devagarzinho.
Aqui é o lugar onde eu sonhei um monte de coisa um dia mas então eu vi que sonhar não é sobre um lugar.
Meus dedos nunca foram finos como eu queria e eu nunca cheirei coisa doce e fresca e feminina.
Quando tá calor eu tenho cheiro de ferrugem. Quando tem vento eu melhoro.
Agora eu vou juntar meu cobertor e vou lá pra dentro. Ta tocando música clássica no banheiro e uma  prostituta nordestina/paulistana veio reclamar do preço do café aqui pra mim e por um momento estivemos juntas, concordamos e depois partimos.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Sobre a Maria Desejo e sua morte sorocabana

Um coma induzido por mim mesma.
Fiz minhas esculturas todas ocas e depois as coloquei no pé da sua cama mas lá sempre chove e depois faz sol e depois chove e depois faz sol e é claro que elas racharam e você não devia estar perguntando com essa cara de quem não viu.
Sabe que eu não aguento de novo todas essas tempestades sendo que aqui dentro eu tenho um laguinho hoje (ou uma tempestade outra) e prefiro não me arregaçar tanto outra vez se esse arregaço não é meu: é seu.
Que seja brilhante e com um pote de ouro no final mas que você nunca consiga colocar os dois pés inteiros lá porque daí acabaria, né?
As vezes eu acho que aqui já acabou mas eu talvez só precise de outra drenagem no meu pulmão e que esse sino de merda pare de insistir.
Eu fico aqui entre me afogar e ser  jesus caminhando sobre as minhas próprias águas mas na verdade só importa que o mundo continue parecendo vermelho as vezes e que algumas noites nem existam.

No fim das contas Maria morreu de cansaço. O sangue escorreu devagarzinho: um filete fininho que nem se via. Era rosinha e no final virou água do mar de novo.